Dança das Cadeiras, sem cadeiras

O que era um exposição com mediação cultural, virou reflexão sobre saúde e segurança do trabalhador 

Cheguei a Brasília como o único artista mineiro selecionado para participar da programação. Antes mesmo da viagem, preparei o material com cuidado: selecionei fotografias de miniaturas de cadeiras comuns entre as décadas de 1940 e 1970, dispostas em uma caixa iluminada para proporcionar abandono, silêncio e memória. Minha proposta inicial era simples: conduzir um escritório de desenho de observação, baseado na técnica de hachura, para refletir sobre o ato de sentar — quem tem o direito de ocupar um lugar, quem é deixado de pé. Mas a experiência acabou se transformando em outra coisa. 

Demarquei o espaço com uma fita metálica de vedação no chão, posicionando as fotografias e delimitando o lugar onde deveria estar um mural. À frente, dispus duas mesas tipo prancha, com papéis e canetas. Esse gesto inicial já provocou reações diversas: algumas pessoas observavam com curiosidade; outras ignoravam completamente a marcação, pisando sobre ela, mexendo nas folhas e nos materiais.

"A reação mais comum foi uma ansiedade em entender o que iria acontecer. O controle da informação se tornou parte da performance."

Atrasei propositalmente o início das atividades por cerca de vinte minutos, assumindo o papel de hostess do evento. Esse jogo durou pouco: logo alguém investigou minha identidade pelas redes sociais. Então, apresentei-me, falando apenas sobre o processo de confecção das fotos — cadeiras em miniatura que já carregavam, em si, um imaginário de ausência e de restrição.

Questionei as reações. Vieram memórias de infância pobre, sentimentos de austeridade, incômodos, exclusão.

"Foi nesse momento que me desconectei da proposta original e percebi que a oficina já tinha virado outra coisa."

Em vez de praticar hachuras, convidei as pessoas a escrever. Pedi que descrevessem suas sensações no papel, como num manifesto contra a desordem, contra lugares indesejados, ou simplesmente respondendo à pergunta central da instalação: quem tem o direito de se sentar?

Essa mudança abriu outros caminhos: reflexões coletivas, registros compartilhados, diálogos que ultrapassaram a ideia inicial de um exercício técnico. O encontro se tornou performance, documento, memória.

"A cadeira se transformou em metáfora de poder, de infância, de restrição, de ausência. Era impossível voltar ao plano inicial."

E, como se não bastasse, a experiência reverberou em outros espaços. Em um dos dias da programação, fui com colegas artistas a um ato político na Esplanada dos Ministérios. Ali puxamos cartazes com nossas próprias pautas: "Arte não é só entretenimento", "Artista também é trabalhador".

Também durante o evento, tive contato com a Tenda Paulo Freire, braço cultural que homenageou Nego Bispo, pensador e militante quilombola. Sua presença simbólica foi um lembrete de que práticas artísticas e educativas podem ser instrumentos de resistência e reexistência — e que ocupar um lugar, seja numa cadeira ou numa luta coletiva, é sempre um gesto político.

Dessa travessia, guardo os registros — meus e dos colegas — e a certeza de que a ação não se esgota em si mesma. Ela se abre para publicações, crônicas, performances futuras, e para o diálogo com outros artistas que compartilharam desse percurso.

Agradecimentos: aos artistas, colegas e participantes que atravessaram comigo essa experiência; às instituições e pessoas que possibilitaram o encontro; à cidade de Brasília, que com sua monumentalidade e contradições também fez parte dessa narrativa; e à Tenda Paulo Freire, pela homenagem a Nego Bispo, que inspira nossas práticas de liberdade.

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Briga de bar, Briga de escola. Muito do cinema neorrealista esteve ´presente nessas cenas. 

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